Publicado por Gandalf às 10/08/2008 08:14:00 AM
Valor de mercado baixou R$ 111 bilhões. Maior desvalorização foi a do Banco Cruzeiro do Sul, que encolheu 81,6%.
Junto com o setor de construção civil, as ações dos bancos brasileiros de pequeno e médio porte estão entre as quedas mais fortes dentre os papéis listados na BM&FBovespa. Com o agravamento da crise, as perdas desses papéis aumentaram diante da redução da liquidez externa que ampliou a dificuldade em captar recursos. Em média, as ações mais líquidas dessas instituições financeiras despencaram cerca de 60% no ano até esta terça-feira.
Do pico da alta até o final de setembro, o valor de mercado das instituições do setor financeiro brasileiro como um todo perdeu US$ 111 bilhões, baixando para US$ 149 bilhões. A maior desvalorização neste período foi do Banco Cruzeiro do Sul, que encolheu 81,6% ao cair de US$ 1,58 bilhão para US$ 290 milhões, seguida pela queda de 76,9% no valor do Pine, de US$ 1,18 bilhão para US$ 273 milhões.
A Medida Provisória que autoriza o Banco Central do Brasil a comprar diretamente carteiras de crédito de bancos comerciais visa se antecipar à crise e servirá para ajudar as pequenas e médias instituições que sofrem com a escassez de crédito, causada pela crise internacional.
Tal saída alivia as instituições financeiras que, diante da escassez de recursos precisariam desfazer de suas carteiras de crédito. No entanto, a decisão teve pouca influência no comportamento das ações dos bancos. As preferenciais do ABC cederam 7,82%, do BicBanco 8,28% e do Paraná Banco 9,06%. Na contramão, subiram Sofisa (2,52%) e Daycoval (1,06%).
E há aqueles que perderam ainda mais. As ações preferenciais do Pine desvalorizaram 75% desde o final do ano passado, a maior dentre os bancos menores. Somente no pregão de esta terça-feira, a cotação desses papéis desvalorizou 17,83%. O Conselho de Administração do banco aprovou, em 1º de outubro de 2008, a abertura de um novo programa de recompra de ações preferenciais de própria emissão, mas a decisão não ajudou.
Um dos problemas da carteira do Pine é seu perfil, voltado para as pequenas e médias empresas, o que a torna pouco atrativa para a compra por parte dos grandes bancos. Ao mesmo tempo, o segmento de crédito para pequenas e médias empresas é visto como de maior inadimplência. No entanto, o Pine também é conhecido como um dos provedores de crédito para exportadoras, assim como o BicBanco, o que deve beneficiar estas duas instituições.
O BC anunciou que destinará uma parcela das reservas internacionais a empréstimos aos bancos, desde que haja garantia de ativos em moeda estrangeira, como títulos da dívida externa. Esta alternativa é vista como melhor que a venda de carteiras.
Em junho, o BicBanco apresentava R$ 1,719 bilhão em financiamentos para o comércio exterior, o equivalente a 18,8% do total da carteira do banco. Com a redução da liquidez externa, os bancos estavam com dificuldade em captar recursos no mercado internacional para as operações de comércio exterior. Por essa razão, instituições como o Banco do Brasil e Bradesco já vinham reduzindo prazos e volumes para exportadoras.
Apesar da forte queda do valor de mercado, os analistas explicam que, no dia-a-dia, a situação dos bancos de médio porte não é tão complicada a ponto de pensar em quebra das instituições. "As instituições não estão muito alavancadas. Na pior das hipóteses tendem a encolher as operações, mas não acredito que o cenário seja de pânico. O BC está apenas se prevenindo, ou seja, vai ficar pronto para garantir a liquidez", diz o analista da Austin Rating, Luis Miguel Santacreu.
Ele acredita que não haverá corrida bancária nem a quebra de nenhuma instituição financeira, seja de grande ou pequeno porte. "O que o BC está fazendo não é um Proer, que era marcado pela compra de créditos podres, mas as carteiras dos bancos são formadas por ativos bons. É mais uma questão preventiva, ou seja, se a situação piorar é oferecida uma saída", explica.
De qualquer forma, a situação não é de total tranqüilidade. Para outro analista do mercado, mesmo os grandes bancos estão buscando o conservadorismo e não vão comprar as carteiras dos menores. "Ninguém vai aumentar a alavancagem", diz. Esta semana, a Standard & Poor"s Ratings Services revisou a perspectiva dos ratings atribuídos ao Banco Daycoval e ao Indusval, de positiva para estável. E ressaltou os problemas de funding.
"As alternativas limitadas de captação de recursos para os bancos de nicho constituem não só desafios financeiros, como também são o principal fator de risco dos ratings para o segmento em geral", acrescentou. "A revisão das perspectivas dos ratings do Daycoval e do Indusval reflete o ambiente operacional mais desafiador para as instituições financeiras no Brasil em decorrência da turbulência nos mercados globais", disse o analista de crédito da Standard & Poor"s Marcelo Peixoto.
Entre os bancos que a Standard & Poor"s avalia no Brasil, o Daycoval e o Indusval eram os únicos que possuíam perspectiva positiva, indicando que ambas as instituições poderiam ter os ratings elevados se continuassem mantendo o ritmo acelerado de crescimento, bem como o sólido desempenho financeiro.
O atual ambiente de negócios para as instituições financeiras, com aperto de liquidez no setor e potencial redução nas margens, limita a possibilidade de elevação nos ratings de qualquer banco no período de 12 a 18 meses, horizonte de tempo da "perspectiva" para instituições classificadas como grau especulativo. "A revisão da perspectiva não significa que vemos um enfraquecimento no perfil de negócios desses dois bancos", disse Peixoto.
Monitor Mercantil
Link: Crise atinge ações dos bancos brasileiros